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sábado, 30 de junho de 2007

Enorme

É, esse texto aí embaixo ficou enorme né. Mas é que era para a faculdade. Coisa da Márcia Rosa. Mas leia, é legal. Lê aí vai. Lê!

Funestos famosos

O destino daquela terça-feira era visitar o Cemitério do Araçá em São Paulo e fazer um tour pelos túmulos descolados do povo famoso. É, gente rica e famosa também morre. Muitas estão lá no Araçá, que fica na avenida Doutor Arnaldo, 666 (macabro! O número da besta, segundo o Iron Maiden).
A viagem começou com cara de sono, já que ainda era madrugada pra mim, quase seis e meia da manhã. Na próxima hora não esperava fazer mais nada que não fosse encostar a cabeça na janela e babar, bem esparramada no banco aveludado e desbotado, que lembrava o azul marinho. Doce engano, ou azedo engano, melhor assim. O cheiro que vinha do banheiro de nada lembrava o aroma de rosas. Ele serpenteava por uma, duas, 34 poltronas e chegava até o meu nariz, impiedoso. Ainda não satisfeito, ele foi encontrar os sovacos do distinto senhor ao meu lado que parecida ter acabado de fazer queijo. Todo o rebuliço olfativo não deixou os meus carneirinhos em paz. O jeito foi ler o jornal do dia anterior que estava devidamente amassado na minha bolsa.
Já na Barra Funda, caçando um anjo da guarda ou só alguém que me fizesse entrar no metrô correto, fitei um rapaz que estava no mesmo ônibus que eu e segui seus passos. No caminho aproveitei pra reparar que ele estava com um All Star amarelado, com um pé quase desamarrado. Interpelei o do tênis e pedi um help. Ele me mandou olhar o mapa, logo atrás de mim. Que gênio! O mapa! “Obrigada”. Se eu quisesse olhar o mapa, já tinha olhado. Fiquei 15 minutos tentando decifrar as linhas verde, amarela, azul, preta, branca e acabei encontrando a direção que me levaria até o metrô das Clínicas. Consegui até fazer a tal da baldeação, “ato ou efeito de passar (algo ou alguém) de uma embarcação para outra”, segundo o Houaiss.

Chegando finalmente ao portão do cemitério fui recebida pelo cheiro das flores, que mesmo sendo as mesmas usadas em casamentos, agradecimentos, aniversário de namoro, desculpas e tudo o mais, têm um cheiro diferente, robusto, morno que me leva ao mundo inferior, como o barqueiro Caronte, na mitologia grega. O padecer, morrer, desintegrar, apagar, sumir, um aroma carregado de sentidos tristes.

Enquanto andava pelo Araçá ia fitando os túmulos com suas esculturas, muito bem ornamentados, e dizendo “Oi”, “Bom dia”, “Olá”, “Tudo bem?”, às dezenas de senhorezinhos que limpavam as vielas e suas edificações. “Uma beleza não!?” ouvi de um senhor que me pegou olhando o túmulo de azulejos cor-de-rosa. “Sim, muito bonito”. Fiquei pensando no paradoxo. Aliás, o Araçá é todo paradoxo. O lugar é todo arborizado, de árvores que se precisa erguer o pescoço até o fim pra ver sua copa. Com passarinhos que cantam em coro ou se revezando, sem deixar o lugar um minuto em silêncio. Olhando assim dava até vontade de fazer um piquenique lá. Por outro lado, ali estavam os pais, mães, maridos, esposas, filhos, irmãos, de muita gente. Pessoas que se foram na hora errada. Será que existe hora certa? Em que é “melhor”? Não, alguém sempre fica infeliz. Não se quer deixar o moribundo ir.

Enquanto esperava para fazer a tal excursão, aproveitei para fotografar uns túmulos, sempre observada de longe, de meio longe, de perto, à um metro, pelo senhor João, que achou uma beleza o túmulo rosa. “Porque a senhora está tirando foto?”, perguntou intrigado. “Estou praticando sabe, acabei de comprar essa câmera”. “Tchau”.

Finalmente a visitação começou, às 11h30, 30 minutos a mais do que o combinado. Um coveiro que mostrava muito os dentes me chamou, pediu desculpas porque estava atendendo “Umas pessoas aí”, hum, sei, que desculpa esfarrapada hein. O senhor Osmair trabalha no Araçá há 17 anos, como guia há cinco. Tem um par de sobrancelhas que formam um toldo sobre o olhos. “Você gosta de arte menina?”, “Adoro!”. Com o sinal verde, ele me levou por corredorzões e corredorzinhos por entre os túmulos, até chegarmos ao trio de mausoléus modernistas, de Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade e Mário de Andrade. Fez questão de me explicar quem eram os dois. “Eu adoro o Abaporu”, me confidenciou. “Você se interessa pela história da política?”. “Não muito sabe” e sorri meio encabulada. Ele queria mudar isso, porque me levou para ver Júlio Prestes, arquiteto e ex-Prefeito de São Paulo. Ah, e Adhemar de Barros, ex-governador do Estado. Fiquem em paz.

Depois de uma hora de caminhada recheada de explicações funestas, me despedi de Osmair, meu amigo (viramos camaradas praticamente) e ele me disse, como quem acabou de ir à padaria “Obrigada pela preferência”. É, o cemitério da Consolação e a Acrópole São Paulo também atraem muita gente para tours. Mas eles não tem o Osmair.

Saí do Araçá e peguei um ônibus. Uma paulistana sentou-se ao meu lado a caminho do terminal rodoviário. Sorri sem mostrar os dentes, erguendo as sobrancelhas por um instante e ela retribuiu com um “está quente hoje né”. Eu disse que “Ah, sim, ainda mais nesta cidade que a gente fica tanto tempo dentro das conduções, né?”. Ela se empolgou e me disse que morava no bairro de Pinheiros e que trabalhava no Bom Retiro (será que é perto? será que é longe?), onde também estava “a escola das crianças”. Imaginei logo que ela deveria ter uns três filhos. Perguntou-me de onde eu era. Falei que era ituana, da gema (piadinha infame). Ela já tinha ido a Itu ”uma vez pra ver o Orelhão. Todo mundo vai ver esse orelhão. “ah, e o semáforo também, a lembrei”. “Ah sim, o semáforo, grande né?”. “É”. Nesse momento tratei de dizer que Itu tinha muitas outras coisas para se ver além daquelas coisas grandes, “temos igrejas muito bonitas sabe, você pode fazer o caminho, Nossa Senhora do Carmo, Matriz e Bom Jesus”. Foi aí que ela disse “não sou católica”. Eu pensei, mas não disse “desde quando é preciso ser católica para se ver a arte que existe dentro das igrejas católicas!?”. Contei que minha ida à São Paulo foi especialmente para visitar os túmulos de famosos no Araçá e que o lugar tinha uns túmulo lindos (esse “lindos” ficou meio estranho) e ela “Nunca fui, não sou católica”. Gente, será que ela não visita os parentes católicos no cemitério? Só católicos enterram seus mortos? Aff!. Eu voltei a falar de Itu e disse que ela podia levar os filhos para o Festival de Artes que acontece em julho e que várias orquestras e cameratas vêm do país todo pra tocar, inclusive com músicos estrangeiros. “Um luxo!”. Aí lembrei que algumas apresentações acontecem dentro de igrejas (católicas), mas nem contei, pra não ouvir de novo “não sou católica”. Não perguntei a que religião ela pertencia, mas depois fiquei curiosa.

Mais um metrô e ainda estava bem longe. Fiquei em pé, quase encostada em outra pessoa, parecia mais um pacote de bolacha wafle. Sem muita coisa pra fazer, fiquei observando as pessoas no único ângulo em que a minha cabeça poderia ficar. Eu observava todos eles. Na mesma cadência iam os olhos, os gestos, os solavancos. Os ombros se sacudiam juntos. Olhos vidrados. Que pensam? Eu penso. Quantas pessoas já se seguraram nesse corrimão hoje, ontem, há dois anos, todos os dias. Quantos micróbios, germes, bactérias contêm em cada poro da imitação de couro dos bancos. Do plástico das paredes. Plástico tem poros. Não que eu seja paranóica. Uma propaganda garantia formação acadêmica na melhor faculdade que existe. “Cursos em dois, três ou quatro anos”. O vagão para numa estação qualquer, mas não consigo distinguir o nome anunciado ao microfone. A voz dava pufs no microfone e o burburinho atrapalhava a já dicção ruim da moça. Ao meu lado uma mulher parecia dormir, ou estar em transe. Se assusta quando começamos a andar de novo, perdeu o ponto. Meu ponto chegou. Deixo o metrô e só tenho agora que passar mais uma hora no ônibus da viação com nome de rio poluído e chegar até a cidade dos exageros ou berço da república ou Roma brasileira, ou só Itu.